domingo, 7 de agosto de 2016

Lelo vem aí

Finalizadas as convenções, e com a retirada de Luiz Paulo da disputa ainda sendo deglutida, o cenário eleitoral em Vitória ganhou mais um inesperado protagonista. O deputado Lelo Coimbra que foi muitas vezes considerado carta fora do baralho ganhou pela insistência e não só é candidato, como é um candidato forte.

Não concorda? Vejamos. Depois da saída de Luiz Paulo, Lelo apareceu nas pesquisas em um sólido terceiro lugar, com cerca de 10% das intenções de voto. Suficiente para tirar ele do bolo e deixar André Moreira, Enivaldo e Perly disputando quem vai melhor entre os que não tem chance de ganhar a eleição.

Na reta final das convenções partidárias, Lelo levou o apoio do PSDB (não o de Luiz Paulo, Sérgio Majeski e Ricardo Ferraço, mas o de César Colnago e Wesley Goggi) e uma penca de apoios entregues pela mão do governador Paulo Hartung, como Paulo Ruy e Haroldo Rocha.

Em síntese, na reta final do lançamento das candidaturas, ninguém ganhou mais que ele.

Há que aguardar como as candidaturas se posicionarão na campanha, que discurso construirão. Certo é que haverá segundo turno, e que dificilmente Luciano Rezende deixará de estar lá. A dúvida para Lelo é quanto tempo leva a desidratação de Amaro Neto, porque, se chegar ao segundo turno, Lelo sai na frente para coletar os votos do deputado estadual que, certamente, incorporarão sentimentos de descontamento e rejeição ao atual prefeito.

Luciano, aliás, corre um grande risco: o de Lelo encorpar muito rápido roubando votos seus e apresentando-se como a melhor alternativa para livrar a cidade do desastre Amaro Neto. Mas Luciano tem também uma grande oportunidade: se trouxer Ricardo Ferraço e Luiz Paulo abertamente para seu palanque, pode liderar uma ampla frente de resistência a tentativa de hegemonia política do grupo hartunguista.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Por 30 dinheiros

A Ufes deve anunciar este mês sua adesão integral a Sisu. A mudança, conduzida sob as bençãos do reitor Reinaldo Centoducatte, entrega, por trinta dinheiros, o futuro dos jovens capixabas.

Explico: com a adesão integral ao Sisu, a Ufes abre suas vagas a estudantes de todo o país sem que eles precisem sequer saber onde fica ou como é o Espírito Santo (não haverá mais provas com conteúdo local) e vende mais um quinhão de sua autonomia ao Ministério da Educação por uns trocados. Sabe-se lá para que nem por qual razão, já que transparência nos gastos da Ufes é coisa não passa pela cabeça do reitor.

Os estudantes de nossa rica e povoada vizinhança poderão sem esforço algum mandar para cá os seus jovens que não conseguirem vagas em suas próprias universidades públicas. Eles nem precisarão vir até aqui para fazer as provas.

Não se trata de imaginar que outros sejam mais inteligentes ou estudiosos que os capixabas. Não há qualquer motivo para supor isso. Mas não devemos escamotear a estatística acachapante: para cada capixaba que faz o vestibular, há cerca de 20 mineiros, fluminenses e paulistas.

A luta é francamente desleal. O Rio de Janeiro possui mais de 16 milhões de habitantes e um PIB superior a R$ 626 bilhões. Em Minas Gerais, são mais de 20 milhões de pessoas e um PIB de R$ 351 bilhões. Isso para não mencionar São Paulo, com seus 44 milhões de habitantes e PIB de R$ 1,7 trilhão. Para comparar, no Espírito Santo somos 3,9 milhões de habitantes com um PIB de R$ 107 bilhões.

A corda poca sempre do lado mais fraco. Ocupadas as vagas aqui, as famílias dos jovens de classe média e alta encontrarão formas de enviar seus filhos para outros estados - onde sobrem vagas - ou mesmo para as boas faculdades particulares. Já os filhos das classes populares, esses não terão para onde correr: despojados da Ufes, abandonarão o ensino superior ou empenharão seu futuro em empréstimos para estudar em faculdades particulares de segunda linha.

Mas, nada disso importa ao senhor reitor e seus operadores. O que importa são os trinta dinheiros. Como na imagem que ilustra esse texto, assistimos ao beijo de Judas, um ato que na aparência é amizade e bondade, mas que esconde todo o prejuízo que irá causar.

Por fim, pode ser ainda pior. Como há o risco imediato de que 40% das vagas no curso de medicina - um dos favoritos das classes média e alta - serem tomadas por estudantes de outros estados já no próximo vestibular, está sendo engendrada uma solução de encomenda: a medicina fica fora do Sisu. Ou seja, teremos os cursos da primeira divisão (cujas vagas não são distribuídas nacionalmente) e os cursos da segunda divisão (cujas vagas os capixabas disputarão com os colegas de todos os outros estados).

quarta-feira, 2 de março de 2016

Não calar!

Às vezes, a história e o destino se encontram num único tempo e num único lugar para moldar um momento decisivo na busca incessante do homem pela liberdade. Muitas vezes, esse momento decisivo tem a forma de uma agressão capaz de impulsionar a marcha da história.

A agressão racial sofrida por Ruy Gonçalves pode ser um momento decisivo. Em mensagem postada em grupo do WhatsApp, um colega de trabalho o descreveu como "crioulo de estimação" do chefe. Acontece que o chefe é o vice-governador do estado.

Há motivo para esperança e fé em nossa democracia no que está acontecendo. Ruy não calou, ele registrou queixa por injúria racial, o que vai obrigar o andamento de um inquérito. Ruy não calou, não tentou resolver o assunto caseiramente, em uma conversa com o chefe, Ruy expôs o preconceito onde ele é mais insidioso e, talvez, mais cruel: no cotidiano, nas pequenas ações e reações diárias que cometemos, nem sempre de forma tão crua e óbvia. Pergunte a quem sofre preconceito, ele saberá te explicar melhor.

Por ter acontecido no ambiente político do gabinete de um vice-governador, e por Ruy não ter calado, o assunto vai exigir consequências. Para além do inquérito policial, mais urgente e mais relevantes, serão os desdobramentos políticos.

Não há como o vice-governador calar diante da denúncia. Não como o governador calar diante da agressão racial entre graduados assessores de seu governo. Não como a maquinaria política calar, esconder embaixo do tapete, procrastinar com discursos vazios e medidas inócuas a reação aos preconceitos.

Este não é um problema dos negros. Este não é um problema de recursos humanos. Este não é um problema pessoal. Há apenas um problema brasileiro.

Há uma regra fundamental quando se vive como nós estamos a viver – em sociedade, porque somos uns animais gregários – que é simplesmente não calar. Não calar! Que isso possa custar em comunidades várias a perda de emprego ou más interpretações já o sabemos, mas também não estamos aqui para agradar a toda a gente. Primeiro, porque é impossível, e segundo, porque se a consciência nos diz que o caminho é este então sigamo-lo e quanto às consequências logo veremos.
José Saramago, in 'Uma Longa Viagem com José Saramago'